Democracia Digital

Digitalização e Esfera pública no Brasil

Eleições 2022, Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral

Repercussão do debate público digital das eleições presidenciais brasileiras de 2022

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1. Sumário Executivo

Resumo:

Este relatório apresenta uma visão geral sobre o debate público em torno das eleições presidenciais de 2022, tendo como enfoque a circulação de desinformação e mobilizações antidemocráticas que questionaram diretamente a lisura do processo eleitoral. As informações aqui compiladas se basearam em análises sistemáticas e multiplataformas empreendidas pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV, entre 29 de agosto de 2022 e 08 de janeiro de 2023, que priorizou o debate concernente às instituições e autoridades associadas à Justiça Eleitoral, além de atores políticos caros ao debate sobre a democracia e as distintas articulações digitais voltadas ora para o seu fortalecimento, ora para a sua deliberada fragilização. Para este compilado, foram abrangidas análises referentes às redes sociais Twitter, Facebook, Instagram, YouTube e Telegram, de modo a contribuir para uma visão plural e diversa a respeito do debate sobre a Justiça Eleitoral e articulações antidemocráticas no âmbito digital.

 

Palavras-chave:
Eleições presidenciais; democracia digital; desinformação.

Síntese de Resultados

  • No período de análise, foram registradas 15 milhões de menções ao TSE e 20 menções de menções ao STF no Twitter. Entre os ministros do Judiciário, menções ao presidente do TSE, Alexandre de Moraes, somaram mais de 9,5 milhões de tuítes;
  • Grupos de extrema direita alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro concentraram a produção e a circulação de desinformação sobre o processo eleitoral em múltiplas plataformas, entre setembro de 2022 e janeiro de 2023;
  • No geral, os perfis alinhados a Bolsonaro tiveram protagonismo expressivo no debate político mais amplo, tenha sido a partir de parlamentares e outros políticos, influenciadores, usuários comuns ou veículos de mídia hiperpartidária de direita;
  • Esse protagonismo pode ser ilustrado tanto no debate no Twitter sobre o 7 de Setembro, quando a direita teve 82% das interações frente a menos de 10% do campo progressista, quanto no contexto de denúncias de supostas falhas em inserções radiofônicas favoráveis a Bolsonaro, discussão na qual a direita somou 86% das interações e a oposição deteve apenas 11%. Em proporções semelhantes, essa tendência se repetiu no Facebook, no Instagram e no Telegram;
  • A articulação de manifestações antidemocráticas foi identificada em diferentes momentos do período analisado, especialmente no contexto do 7 de Setembro, data do Dia da Independência, e no pós-eleições, até os ataques de 8 de Janeiro;
  • Os fluxos de mensagens de grupos do Telegram apontaram para uma alta mobilização de usuários bolsonaristas, tendo em vista a participação em manifestações de cunho antidemocrático ou o apoio remoto a elas.

2. Resultados e Discussão

A presente análise correspondeu a um recorte temático que se propôs a adensar a investigação da circulação de desinformação a respeito da Justiça Eleitoral em específico, uma vez que, como demonstraram estudos anteriores sobre a discussão política no âmbito digital (RUEDIGER, M. A. e GRASSI, 2020; 2021), atores políticos e procedimentos ligados ao processo eleitoral tendem a surgir com centralidade neste debate.

A análise do debate eleitoral no Twitter contou com uma série de caminhos analíticos distintos. Com uma base com mais de 15 milhões de menções ao TSE e cerca de 20 milhões ao STF, em todo o período mapeado, foi possível analisar as menções às instituições eleitorais, bem como às autoridades da Justiça Eleitoral. Indicamos, a partir disso, uma intensa mobilização da base aliada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a fim de deslegitimar o sistema eleitoral, bem como os ministros do STF e TSE, com foco no presidente do TSE, Alexandre de Moraes, citado em quase 9,5 milhões de tuítes.

Ao notarmos, neste debate, um predomínio da narrativa de fraude nas urnas, também empreendemos análises mais temáticas sobre o assunto, explicitando a natureza dos ataques contra as instituições e sua relação com teorias anticomunistas e contra o “globalismo”, além de contestações sobre a segurança das urnas e pedidos por intervencionismo e voto impresso. A partir disso, foi possível indicar momentos de fragilidade do sistema eleitoral frente ao debate público digital, como durante o segundo turno das eleições, quando as menções à segurança das urnas tiveram um crescimento de 1153%.

 

 

1) Análise do debate eleitoral no Twitter

 

1.1 Debate sobre instituições e autoridades da Justiça Eleitoral no Twitter

Gráfico 1 - Menções às instituições no Twitter
Período: de 29 de agosto a 29 de dezembro de 2022

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

De setembro de 2022 a janeiro de 2023, foram registradas mais de 6 milhões de menções ao STF, TSE e TREs no Twitter, o que possibilitou a identificação de estratégias, acontecimentos e narrativas sobre a Justiça Eleitoral brasileira. Nesse sentido, alguns tópicos se destacaram, como a narrativa de um suposto conluio entre TSE, STF, a esquerda e a imprensa nacional. Essa ideia foi predominante em todo o período de análises, explicitando o protagonismo do campo aliado a Jair Bolsonaro e a sua alta capacidade de agendar discussões e narrativas no debate digital.

Episódios específicos alimentaram uma certa oposição entre “o povo” e o judiciário, com destaque para as manifestações do 7 de setembro, decisões de veto a atos de campanha de Bolsonaro e supostas comprovações de fraude nas urnas. Mesmo com episódios distintos, o modus operandi da base bolsonarista tendeu a seguir três linhas de ação: levantar suspeitas sobre o judiciário, reforçar a narrativa de nós versus eles e esvaziar a pauta sobre os riscos à democracia.

Nos dias próximos à eleição, tanto no primeiro quanto no segundo turno, observamos uma alta capacidade de mobilização desta base, seja no movimento apelidado de “Você Fiscal”, seja com convocações para filmar as urnas eletrônicas no momento do voto. Em todo o período e, principalmente, no período mais próximo à eleição, a narrativa de fraude foi destaque absoluto entre os demais temas analisados, contando com a participação-chave de influenciadores e políticos alinhados à extrema direita então representada por Jair Bolsonaro. Nos primeiros dias de novembro, por exemplo, mapeamos um pico de cerca de 468 mil menções a um relatório argentino que reuniria supostas provas sobre a fraude eleitoral.

Gráfico 2 - Menções às autoridades da Justiça Eleitoral nacional no Twitter
Período: de 29 de agosto a 29 de dezembro de 2022

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

No debate sobre a Justiça Eleitoral, detalhamos também as menções específicas a algumas autoridades, visando qualificar a imagem destes atores nas redes digitais. No geral, o ministro Alexandre de Moraes foi, com larga folga, a figura mais central deste debate, prevalecendo um tom majoritariamente negativo alimentado pela base aliada a Jair Bolsonaro. Essa oposição, apesar de constante, foi intensificada em alguns momentos. O suposto gesto de degola feito por Moraes durante julgamento do TSE que mantinha a proibição do uso do Palácio da Alvorada para lives de campanha de Bolsonaro foi um destes. O presidente do TSE foi acusado de abuso de autoridade, sendo chamado de ditador de forma frequente.

Esses ataques, embora mapeados no Twitter, continham ameaças mais diretas à pessoa física de Moraes, a exemplo das falas observadas no contexto das manifestações do 7 de setembro, insinuando que o ministro estaria tentando dar um golpe. “Tenta fraudar, Xandão. O recado está dado”, dizia a mensagem viral.

Menções a outros ministros também foram mapeadas, estando muito vinculadas a acontecimentos específicos. Em setembro, por exemplo, houve um aumento de 1278% nas menções a Edson Fachin, devido ao ministro ter derrubado trechos do decreto de Bolsonaro sobre compra de armas e munições. O mesmo ocorreu com as menções ao ministro Benedito Gonçalves, com um crescimento de 318% após Gonçalves proibir o uso de imagens das manifestações do 7 de setembro na campanha de Bolsonaro.

 

1.2 Debate temático sobre a Justiça Eleitoral no Twitter

Gráfico 3 - Menções à fraude nas urnas no Twitter
Período: de 29 de agosto a 29 de dezembro de 2022

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

Ao observarmos a prevalência do debate sobre fraude nas urnas na discussão eleitoral, destrinchamos o tema a fim de compreender quais as narrativas evocadas junto à tese de fraude no processo eleitoral. As instituições públicas, sobretudo do judiciário, foram centrais no debate sobre fraude. Com predomínio de críticas ao TSE, as narrativas de golpe, anteriormente citadas, prevaleceram neste tópico, sendo alavancadas por figuras de destaque na direita, como o pastor Silas Malafaia.

As menções à segurança da urna e ao voto impresso também se destacaram, chegando a superar, em alguns momentos, a discussão sobre instituições. No segundo turno das eleições, por exemplo, mapeamos um crescimento de 1153% no debate sobre a segurança das urnas, com apoiadores do ex-presidente afirmando que o processo eleitoral teria sido fraudado, a fim de justificar protestos e obstruções de vias por todo o Brasil. Dentre as mobilizações mapeadas, destacamos os pedidos por voto impresso, com comentários que pediam uma nova eleição, desta vez com um sistema à mão e “auditável”.

Embora de modo mais lateral, as discussões sobre anticomunismo e globalismo permearam a tese de fraude de modo basilar, sendo mobilizadas para alimentar a desconfiança em relação às urnas e às pesquisas eleitorais.

 

2) Análise do debate eleitoral no Facebook e Instagram

 

Considerando as especificidades do Facebook e do Instagram, bem como as possibilidades de acesso e coleta destas plataformas, empreendemos outros modos de análise do debate eleitoral, com foco nos perfis de destaque em cada rede. Dessa maneira, analisando o capital digital de diferentes usuários, foi possível compreender dinâmicas de engajamento destas contas.
Verificamos, com isso, que o protagonismo da direita no debate eleitoral, mapeado acima no Twitter, também compõe as dinâmicas do Facebook e do Instagram, onde parlamentares, influenciadores e veículos de mídia hiperpartidários desempenharam um papel central.

Para além de explicitar este protagonismo, detalhamos ainda tentativas de fragilizar a imagem da Justiça Eleitoral, materializadas em postagens com alegações de censura, abuso de autoridade e fraude. Verificamos o crescimento do engajamento de alguns perfis a partir do tópico observado, como ocorreu com o programa Os Pingos Nos Is, que tendia a ser alinhado ao ex-presidente: ao tratar do pedido de anulação das eleições pelo Partido Liberal (PL), ao qual o ex-mandatário era filiado à época, a página aumentou seu engajamento médio em cerca de 1042% de uma semana para a outra, em novembro.

 

2.1 Principais atores do debate eleitoral no Facebook e no Instagram

Gráfico 7 - Capital Digital Facebook
Período: setembro, outubro, novembro e dezembro de 2022

Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

No contexto de mapeamento dos principais atores, verificamos que a base aliada ao ex-presidente Bolsonaro dominou o debate no Facebook por várias semanas, sendo destaque, por exemplo, nos dias próximos ao 7 de setembro e na semana após o primeiro turno das eleições. A oposição ao então governo conseguiu proeminência em poucos momentos, como logo após o segundo turno, no início de novembro, com elogios à atuação de Alexandre de Moraes pela condução do processo eleitoral.

Ambos os campos tiveram parlamentares como protagonistas. Na direita, Carla Zambelli, Carlos Jordy e Marcel van Hattem se destacaram, enquanto na esquerda, figuras como Humberto Costa e Gleisi Hoffmann foram centrais. No entanto, o campo da direita foi além, estabelecendo conexões também com veículos de mídia hiperpartidários, potencializando, desse modo, a circulação de diversas narrativas contrárias à justiça eleitoral. O protagonismo destes veículos ficou explícito, por exemplo, na segunda e terceira semana de novembro, quando o programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, tratou do pedido de anulação das eleições pelo PL.

Observamos o constante empenho de parlamentares e veículos de mídia para fragilizar a imagem do judiciário, sobretudo do TSE e do STF. Desde insinuações sobre um suposto conluio entre a chapa de Lula e Alexandre de Moraes, até alegações de censura e abuso de autoridade.

Gráfico 8 - Capital Digital Instagram
Período: setembro, outubro, novembro e dezembro de 2022

Fonte: Instagram | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Instagram | Elaboração: FGV ECMI

O campo da direita também conseguiu protagonismo no Instagram, não apenas com parlamentares e veículos de mídia, mas também com influenciadores e páginas de apoio. Nomes como Renata Barreto, Carla Zambelli e Jovem Pan News foram centrais em diferentes momentos de todo o período mapeado, liderando tentativas de fragilizar a imagem da Justiça Eleitoral.

No entanto, as formas de articulação deste campo variaram ao longo dos meses. Em setembro, por exemplo, o grupo focou em uma campanha positiva do governo Bolsonaro e em ataques diretos ao judiciário. Após o primeiro dia de votação eleitoral, o tom adotado em relação ao judiciário foi de parcimônia, o que se diferencia do teor acusatório e conspiracionista anterior ao primeiro turno.

Com a vitória de Lula, a ofensiva se intensificou, com ataques diretos ao ministro Alexandre de Moraes, acusando o STF e o TSE de atos inconstitucionais. Em dezembro, houve tentativas de alguns parlamentares, como Marcel van Hattem, de institucionalizar os ataques ao judiciário por meio de uma CPI. De modo similar, em novembro, monitoramos as movimentações de Bia Kicis e Carla Zambelli para dialogar com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos por supostos abusos do STF e do TSE.

A análise da performance destes perfis em momentos específicos também foi um componente levado em consideração ao longo da pesquisa. Durante o segundo turno das eleições, a polarização da cena política se refletiu no debate digital, com destaque para a influenciadora bolsonarista Renata Barreto e os veículos de mídia progressista e/ou de esquerda Mídia Ninja e Carta Capital. Nesse contexto, as operações da Polícia Rodoviária Federal no dia da votação consistiram em um tema de forte disputa nas redes, sendo enquadradas como uma “blitz eleitoral” pela esquerda e como uma tentativa de impedir a compra de votos, pela direita. Logo após o segundo turno, em 31 de outubro, foi registrada uma inversão na lógica observada nos meses anteriores, com perfis e páginas de oposição a Bolsonaro se destacando.

 

2.2 Interações e impulsionamento no debate eleitoral no Facebook

Gráfico 9 - Evolução de posts e interações sobre o sete de setembro em grupos de apoio a Bolsonaro no Facebook
Período: 01 de julho a 01 de setembro

Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Facebook | Elaboração: FGV ECMI

No contexto da movimentação digital em torno do 7 de setembro, monitoramos cerca de 1739 grupos de apoio a Bolsonaro no Facebook. Partindo de uma base com 13,4 mil postagens sobre o 7 de setembro, verificamos que as postagens utilizaram vídeos e falas do ex-presidente para convocar a população às ruas. Nestes conteúdos, também observamos críticas ao TSE e ao ministro Alexandre de Moraes, que foi chamado de “imperador” por suas decisões, entendidas como tentativas de impedir a manifestação popular em favor de Bolsonaro no feriado da Independência. Postagens que diziam, de modo implícito, que não iriam respeitar as decisões do ministro em relação à data comemorativa, também foram comuns.

 

3) Análise do debate eleitoral no YouTube

Indo além de análises sobre interações no Twitter ou perfis de destaque no Facebook e no Instagram, destrinchamos também na pesquisa parte do debate eleitoral que circulou no YouTube, visando tanto diversificar as plataformas mapeadas, quanto compreender as tendências e caminhos da criação de conteúdo audiovisual sobre o tema. A análise do YouTube permitiu elaborar listas com os principais vídeos sobre a justiça eleitoral e também sobre a tese de fraude nas eleições. Dessa maneira, destacamos os canais mais atuantes e centrais para a discussão, suas métricas de visualizações e likes, bem como os conteúdos e narrativas acionados. Foram, ao longo do período mapeado, cerca de 433 vídeos destacados enquanto relevantes no debate sobre a Justiça Eleitoral.

Gráfico 11 - Vídeos com menções à Justiça Eleitoral no YouTube
Período: setembro, outubro, novembro e dezembro de 2022

Fonte: YouTube | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: YouTube | Elaboração: FGV ECMI

Canais alinhados à base do ex-presidente Bolsonaro, como Os Pingos Nos Is e Jovem Pan News, obtiveram um forte destaque na plataforma em todo o período mapeado. De modo menos frequente, também mapeamos a presença de veículos mais tradicionais neste debate, a exemplo do canal do SBT. Como no Twitter, os argumentos utilizados assumiram um tom de maior sensacionalismo e alarde no YouTube, circulando conteúdos majoritariamente críticos à Justiça Eleitoral. Em outubro, por exemplo, um dos principais vídeos sobre o assunto afirmava, já no título, que Alexandre de Moraes teria sido “enquadrado” por um senador, assim como, em setembro, o suposto impeachment do ministro foi tratado em tom de urgência.

Vídeos com oposição mais explícita e direta ao TSE obtiveram lugar de protagonismo ao longo dos meses, indicando como o debate digital refletiu a polarização da cena política nacional. Se, em setembro, o principal conteúdo afirmou que o TSE teria autorizado xingamentos contra o ex-presidente, em outubro, o canal Os Pingos Nos Is convocou as pessoas a assistirem “ao vídeo que o TSE não quer que o Brasil veja”. Do mesmo modo, em novembro, o canal PROBLEMA RESOLVIDO conseguiu centralidade no debate ao afirmar que “Caiu a casa de Alexandre de Moraes”.

Gráfico 12 - Vídeos com menções à fraude nas urnas no YouTube
Período: setembro, outubro, novembro e dezembro de 2022

Fonte: YouTube | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: YouTube | Elaboração: FGV ECMI

Para além das menções à Justiça Eleitoral, também mapeamos vídeos que fizeram referência à tese de fraude nas eleições. Diferentemente das análises supracitadas, nas quais a base de Bolsonaro tem destaque quase absoluto, o mapeamento das menções à fraude eleitoral no YouTube apontou para a existência de uma disputa mais acirrada. Em setembro, por exemplo, o principal vídeo do período foi contra a tese de fraude, indicando que eleitores de Bolsonaro iriam errar o voto e, em seguida, alegar um conluio do TSE.

No entanto, mesmo com tentativas de disputa do debate, as narrativas que descredibilizam as urnas e o sistema eleitoral seguiram em destaque, acionando o sensacionalismo supracitado para atrair atenção e engajamento. É o caso de vídeos como “Relatório não descarta fraudes”, de novembro, e “Revelado tudo: ainda tem mais pessoas juntas com Alexandre de Moraes no inquérito”, de dezembro. Em outubro, mês das eleições, o YouTube foi constantemente acionado para materializar a tese de fraude nas urnas.

 

4) Análise do debate eleitoral no Telegram
De setembro a janeiro, foram produzidas diversas análises a partir de aplicativos móveis, com ênfase em Telegram. Considerando as bases de grupos e canais públicos no Telegram, foi possível medir a temperatura de grupos políticos e as menções, críticas e ameaças à atuação da Justiça Eleitoral.

Imagem 1 - Mensagens sobre a Justiça Eleitoral no Telegram
Período: de setembro de 2022 a janeiro de 2023

Fonte: Telegram | Elaboração: FGV ECMI

. Fonte: Telegram | Elaboração: FGV ECMI

Notícias falsas, teorias da conspiração e chamados à ação contra a Justiça Eleitoral e a democracia foram componentes centrais no âmbito do Telegram. Na plataforma, foi recorrente o compartilhamento de conteúdos sob a argumentação de que haveria um conluio arquitetado entre a Justiça Eleitoral, a imprensa e a esquerda para impedir a reeleição de Bolsonaro. Agregador de conteúdos advindos de outras plataformas e redes sociais, o Telegram consistiu em uma ferramenta estratégica e eficiente para disseminar teorias a respeito de fraudes nas urnas, especialmente nos dias de votação, além de contribuir para a articulação de movimentos antidemocráticos organizados, ao exemplo dos acampamentos ilegais e dos próprios ataques de 8 de janeiro.

Em setembro, registramos uma série de relatos de que o TSE teria censurado vídeos da campanha do ex-presidente e um conjunto de mensagens de incentivo ao uso do celular para registrar supostas “fraudes” no ato de votação. No mesmo período, houve alta circulação de vídeos falsos que simulavam pesquisas de campanha favoráveis a Bolsonaro a partir da manipulação de trechos do Jornal Nacional. Entre o fim de setembro e o início de outubro, repercutiram mensagens estimulando o porte de armas nas eleições e bloqueios em BRs em grupos de apoio a Bolsonaro. Logo após o primeiro turno, diversos vídeos “comprovando” supostas fraudes circularam na plataforma. Os bloqueios promovidos pela PRF no dia do primeiro turno também estiveram no centro do debate. A atuação de Alexandre de Moraes contra os bloqueios foi lida como prova de “conluio”.

Em novembro, chamadas à ação contra o resultado das eleições, com a articulação de acampamentos antidemocráticos em vários estados, foram impulsionadas na plataforma. Falas de Bolsonaro foram usadas para “legitimar” os protestos e diversos pedidos de “intervenção militar” circularam no Telegram. Entre o fim de dezembro e início de janeiro, houve uma intensificação da articulação de grupos bolsonaristas na plataforma e o estímulo à permanência nos acampamentos.

3. Conclusões

As análises apontaram para um predomínio importante do campo político alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro no âmbito da discussão política, grupo que se posicionou nas redes a partir de uma articulação digital diferenciada. A disseminação de discursos de desinformação nas redes, em especial sobre a desconfiança acerca do sistema eleitoral, das instituições e de seus representantes, contribuiu para a consolidação de movimentações antidemocráticas que tiveram ressonância em diferentes regiões do país.

A partir da articulação digital de grupos bolsonaristas, houve manifestações eloquentes contra o resultado legítimo das eleições, como os bloqueios em BRs, a montagem de acampamentos ilegais e os ataques do dia 8 de janeiro em Brasília. Essa dinâmica foi observada em múltiplas plataformas, seja nas redes de interações entre influenciadores e veículos de mídia no Twitter, seja em estratégias de engajamento no Facebook e no Instagram, ou ainda a partir de conteúdos com forte tom de urgência e sensacionalismo no YouTube.

As análises feitas a partir de aplicativos móveis, especificamente o Telegram, também demonstraram um alto poder de articulação de grupos políticos nessas plataformas para eventos concretos. Entre os exemplos, estão chamados à ação referentes ao estímulo de registros de supostas fraudes durante a votação e ao engajamento, remoto ou presencial, em manifestações antidemocráticas, que, em geral, estiveram associadas a grupos alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

As plataformas atuaram como vetores para instruções práticas no sentido de manter o funcionamento de acampamentos ilegais e organizar caravanas para os ataques coletivos em Brasília de 8 de janeiro de 2023, além do compartilhamento de táticas para evitar o rastreamento de autoridades e opositores ideológicos, ao exemplo da mudança de nome de grupos para termos genéricos e fotos de bilhetes com instruções escritos à mão ao invés de informações digitadas. Exposto isto, ressaltamos a importância do avanço contínuo em termos de pesquisa e análise do ambiente digital no âmbito do debate político.

4. Expediente

Coordenação de pesquisa
Marco Aurelio Ruediger
Amaro Grassi

Pesquisadores
Leticia Sabbatini
Renato Contente
Mariana Carvalho
Victor Piaia
Sabrina Almeida
Dalby Hubert
Maria Sirleidy Cordeiro
Polyana Barbosa
Lucas Roberto da Silva

Revisão técnica
Renata Tomaz

Projeto gráfico
Daniel Almada
Luis Gomes

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